O Eu ou o Nós?

O Crepúsculo do dever ou o fim da cultura moralizadora, assim caracteriza Gilles Lipovetsky a sociedade do novo século, que tem respondido à crise de uma forma muito peculiar, em comparação com as anteriores provações sociais. Não é indiferente, a forte resiliência com que as sociedades ocidentais têm encarado a necessidade de um esforço colectivo perante a crise. Actualmente a sociedade do self-interest reina na maioria dos países ocidentais. Findas as décadas de repressão moralizadora das primeiras democracias, ainda fortemente marcadas por um lastro de autoritarismo, e por uma faceta paternalista, foi-se esbatendo ao longo do tempo os valores colectivos e sobretudo o sentido patriótico que mediavam a vida em sociedade. O tendencial fim da obrigação, a fobia às regras e ao sacrifício, marcam o espírito das pessoas no actual século. A equação entre o Eu ou o Nós tende invariavelmente a pesar para o interesse pessoal.

A título de exemplo, a indiferença com que a actual sociedade portuguesa vivencia datas tão significativas como o 25 de Abril ou 5 de Outubro, é sintomático do actual estado da mesma, no que respeita ao passado histórico, ao sentimento de pertença, mas sobretudo à memória colectiva. O interesse próprio sobrepõe-se ao bem-estar colectivo, e o actual modelo económico da “sociedade de consumo” soube habilmente tirar partido deste clima de egocentrismo, procura de satisfação pessoal e vaidade. É certo, que a emergência de uma sociedade laica, menos moralizadora, e mais sensível aos problemas subjectivos do indivíduo, era uma necessidade reconhecida e premente, no entanto, o caminho para a secularização da moral, e para a laicidade do estado, corre em paralelo com o caminho para uma sociedade de irresponsabilidade colectiva, desgoverno moral e perda de valores comuns.

As lutas sociais em defesa dos direitos adquiridos estão despojadas do significado real, revestem-se de um devaneio ideológico, acicatado pelos partidos e sindicatos de esquerda, que há já muito tempo esvaziaram o sentido ideológico real das suas acções e preocupações. Os cidadãos estão notoriamente mais preocupados com a perda do direito a um subsídio ou a alguma regalia, do que propriamente com a luta de classes ou com os direitos de determinado grupo profissional. A aparente paz social que se vive perante as políticas de austeridade, são uma ilusão temporária que vai resistindo fruto de um país de aparentes “brando costumes”, adiando assim os já expectáveis tumultos sociais.

No entanto, a aparente união das pessoas nos protestos contra o actual rumo do país, maquilha aquilo que vai sendo evidente com a chuva dos dias, cada um por si, e salve-se quem puder! Os ajuntamentos são meras somas de números, pois não se caracterizam por um real sentido de comunidade e de motivação, como é sabido, o todo não é igual à soma das partes. Contudo, este é um tempo propício para reverter o actual rumo do individualismo, e revitalizar os valores e os sentidos colectivos, é necessário alertar as pessoas para o passo eminente em direcção ao abismo social.


  • Artigo Publicado

8 de Outubro de  2011  – Correio do Minho

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Um pensamento sobre “O Eu ou o Nós?

  1. Domingos Mendes disse:

    À muito que se assiste a um discurso e atitude mediocre por parte da esquerda no nosso país…! Comentários gastos, argumentos sem força, sem capacidade de mobilização,… Pior ainda quando nos focamos em casos individuais: sindicalistas, membros dos partidos, detentores de cargos “confortáveis”: não são capazes de VIVER na diferença (e não só parecer ou dizer fazê-lo!).

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