Reinventar o Espaço Público

Não podemos deixar de nos espantar, ou ficar indiferentes, perante as sucessivas notícias que dão conta da ruína (há muito anunciada pelos mais iluminados profetas da desgraça, Medina Carreira, Marcelo R. de Sousa, entre outros) deste pobre país “à beira mar plantado”. É certo que, este caldo de crise política não é novidade na ementa do quotidiano dos portugueses, no entanto, os contornos que tem assumido a actual crise internacional, e o tratamento que este tema tem sido alvo por parte dos órgãos de comunicação social, trás à praça pública uma série de novas variáveis, que deveriam preocupar até o mais leigo cidadão desta “sociedade do conhecimento”. E é sobretudo o conhecimento e o actual escrutínio de informação por parte dos media, que despertaram os mais altos desígnios da minha consciência cívica, para escrever este artigo de alerta.

Reduzimos actualmente o nosso espaço público de discussão ao que é transmitido pelas televisões, a chuva noticiosa dos últimos meses que tem feito transbordar até a paciência do mais razoável cidadão, tem como efeito perverso, ao contrário do que pensam esses sábios das equipas de redacção, a desinformação. Conduz a uma passividade que corrói os pilares da democracia, na medida em que confunde os cidadãos com constantes ditos e desditos, num bailado de mau jornalismo, que em muitos casos persiste em trazer ao debate nomes pouco credíveis ou até mesmo com provas dadas no capítulo da incompetência política.

Persistimos, segundo o filósofo José Gil numa “não-inscrição” (significa que os acontecimentos não influenciam a nossa vida, como se não acontecessem), persistimos em dar abrigo mediático a personalidades que de tanto errarem no capítulo público e nomeadamente político, deveriam desaparecer de um espaço que infelizmente se assume como o único e quase exclusivo espaço de discussão. Mediatizar estes indivíduos, traduz-se na promoção de um clima de absolvição social perante o crime, a incompetência, e a pobreza de espírito.

Torna-se premente erradicar personalidades que persistem em contaminar as nossas consciências, com opiniões constantemente vestidas e travestidas, a favor do vento das mudanças políticas. Caso não seja possível, é necessário então, como já o era há algum tempo, promover mais espaços de discussão política, de intervenção cívica e de manifestação. Espaços tendencialmente apartidários, onde o comum dos cidadãos possa expressar as suas mais nobres reivindicações, sem por isso ter de se filiar ou estar associado a um partido político, e entrar num rebanho onde todos são aparentemente iguais, pensam da mesma forma, e obedecem a um pastor visionário.

  • Artigo Publicado

23 de Março de 2011  – Correio do Minho

Nº 339  – Jornal Ecos de Negrelos

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